Sexta-feira, 31 de Agosto de 2012

ARTIGO DO MÊS

No meu tempo era assim…

…na Terra do Chicharro


Era uma vez, uma ilha que ficava situada no meio de um mar, onde viviam grandes cardumes de chicharros.

O mar, de um azul intenso, contrastando com a espuma branca junto dos negros rochedos de basalto, era o espelho da alma dos seus habitantes.

Povo humilde, honesto, vivendo em casas de um branco imaculado, onde não havia senhores e gente, todos eram homens e mulheres, com carácter e se vivia da terra e do mar, tratando os bois pelo seu nome e com o respeito que deve ter todo o companheiro empenhado na colaboração das tarefas diárias.

Gente que se fazia ao mar em frágeis embarcações, ainda o sol não tinha aparecido acima do horizonte, remando, remando, até aquela marca que enfiava a torre da igreja com o Pico da Vila a começar a aparecer.

Caras crestadas pelo sol, mãos calejadas de agarrar os remos, um assobio da música da última dança de Carnaval soltado de beiços gretados pelo frio e pela ressalga, uma esperança de voltar com uns centos de chicharros que, depois de secos ao sol, garantissem o conduto para o inverno.

Mulheres que em casa esperavam os maridos, com a ceia abafada, depois de uma tarde toda junto de um fogão de lenha, ora soprando as brasas do lume amuado da lenha que não fora recolhida antes da chuvinha que há muito se anunciava, ora olhando os pequenos, tanto o que havia nascido quinze dias antes e que no berço dava os seus primeiros acordes, como os outros sete, em escada de idades, de intervalos de doze a quinze meses, que brincavam em redor da casa. Davam que fazer à mãe. Lavar as fraldas, que já haviam servido para criar os outros, o tempo nem sempre propicio para secá-las obrigava a dar um aquecimento no forno a lenha para as secar. O marido havia-se prevenido durante as podas das vinhas, recolhera dos amigos a maior quantidade possível e o Ti João da Ribeira tinha-lhe dado autorização para cortar umas faias que estavam a cair para a ribeira. Durante uns dias, em que o mar não esteve de feição, não houve tréguas para o machado. Alguma foi trazida para casa, aos molhos, às costas. O pior era o transporte dos troncos mais grossos, que sempre davam umas achas que muito jeito iriam dar, por se poderem guardar no palheiro e, num momento de chuva, era sinal de que o almoço estaria a horas na mesa. Enquanto olhava para a abundância de lenha, apareceu o vizinho, o Toutinegra, a dar dois dedos de conversa, vendo que ele ia ter dificuldades em fazer chegar aquela abundancia a casa, ofereceu-se para a transportar no carro de bois, prometendo que no regresso da sacha do milho, nem que tivessem de levar o sachador às costas, lhe transportaria a lenha até a casa.

Havia que fazer pela vida, quando o mar não dava tinha que se virar para a terra.

A casa que fora construída, com muitas ajudas, na “pisca” de terra que o pai comprara, a muito custo, por meio conto, uma fortuna para quem só tinha dois braços e uma família de seis pessoas e a mãe entravada numa cama, era pequena para toda esta gente. Sempre viveram assim, e já os avós tinham criado os nove filhos, fora os três anjinhos que Nosso Senhor havia levado e que lá no Céu estariam a pedir pelo bom sucesso dos que labutavam diariamente neste Mundo.

Os dois mais velhinhos já andavam na escola. Todos os dias havia que arranjar qualquer coisa para lhes meter na sacola, feita de cotim das calças que o pai já não usava, para almoçarem. Quando o pai conseguia peixe, um ou dois chícharos e um bocado de pão de milho, ficavam arranjados até chegarem a casa. Água nunca faltava, ali perto ficava o poço do Ti Chico Cambado e este não se importava que eles puxassem um ou mais baldes de água, até chegavam a ajudar a tia Mariquinhas enchendo-lhe a pia de água, poupando-lhe as forças para a estafa que era lavar a roupa de uma casa de família numerosa.

A escola ficava longe, mais de dois quilómetros, os pés, apesar de muito jovens, já tinham criado uma sola dura, mas havia sempre uma maldita pedra, mais alta, que ia de encontro ao dedo maior, e a unha ficava virada para cima a sangrar. Parecia maldição da Tia Espadana, que uns dias antes lhe tinha pedido para ele ir à venda comprar dois ovos de petróleo e tinha dito que ela que fosse se quisesse, em vez de andar a dar à tramela pelos caminhos. O receio desta fazer queixa ao pai e o corretivo a que ficaria sujeito, faziam-lhe desaparecer as dores da amaldiçoada topada.

Em casa a mãe dava voltas para resolver o problema da alimentação. A horta estava quase esgotada. As couves, poucas e já ninguém as podia ver. Os nabos, devido à seca, estavam espigados e pequenos, valia umas batatas, guardadas de uma boa colheita, que fritas em banha eram um regalo para os olhos dos pequenos para comerem com o pão de milho. A ajuda do Ti Joaquim era preciosa, tinha seis vacas e da parte da tarde desnatava o leite, dando-lhe todos os dias dois litros de leite desnatado (atualmente leite magro), que ajudados com um café de cevada, davam para todos reconfortarem o estomago de manhã e durante a noite para a mãe quando esta se queixava com “agasturas”.

Tanto que ela tinha trabalhado para criar os filhos, passando necessidades que só Deus sabia, e agora via-se naquela cama dando tanto trabalho. Era verdade que se não fosse aquele “raminho do mal de Nossa Senhora” que lhe dera, ainda ajudaria a criar os netos. Mas Deus assim o quis, e abençoava a filha que tinha que muito a estimava, assim como os outros filhos por onde passava, para aliviar o cansaço de todos.

 

Adelino Paim de Lima Andrade


(Texto integrado na rubrica Artigos de Opinião do Programa da SCM de Angra do Heroísmo para o Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e Solidariedade entre Gerações.)



 

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publicado por servoluntariosempre às 11:41
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