Sábado, 6 de Outubro de 2012

Histórias de vida

     Esta é a história de vida de alguém que conseguiu transformar a dureza de algumas situações numa escola do viver:
    Adelino Paim de Lima Andrade é natural das Lajes, vila pertencente à cidade da Praia da Vitória, ilha Terceira, arquipélago dos Açores. Neste momento, vive em Angra do Heroísmo, a outra cidade da sua ilha natal e apesar dos seus sessenta e oito anos continua a ser uma pessoa muito ativa na sociedade.
    Nasceu em 1944, plena 2ª Guerra Mundial. Os seus pais viviam junto da Base Aérea das Lajes, base que teve um importante papel no apoio aos EUA durante esta guerra. Por esta razão, com receio, mudaram-se para uma zona mais afastada da freguesia e em 1946, com o fim da guerra, construiram aí a casa que seria a casa onde o Dr. Adelino passaria a sua infância. Este descreve-a como tendo sido uma infância livre e feliz.
    Naquela época, havia uma tradição que, infelizmente, hoje se perdeu; quando alguém se  mudava para a freguesia, os moradores próximos da nova moradia faziam o que se chamava “oferecer a sua casa”: iam visitar o novo vizinho  como forma de se conhecerem e de dar as boas vindas. Essa visita era retribuida, normalmente, no domingo seguinte.  Na altura, havia crianças em quase todas as casas e a freguesia era deles - “Passavamos a pertencer a uma família”.
     Até aos sete anos de idade, os dias eram desimpedidos: “iamos brincar para os matos, subiamos às árvores, quando chegavam aviões novos da guerra da Coreia íamos para a pista ver os aviões chegar, íamos para as debulhadoras brincar na palha…” O único sinal de que estava na hora de voltar a casa era o sino da igreja. Quando davam as badaladas das trindades do meio dia, era hora do jantar; quando davam as badaladas da noite, era hora de cear. – “esse era o nosso marco”.
    Na altura, as crianças entravam para a escola aos sete anos, e o Dr. Adelino recorda que na véspera do primeiro dia de aulas a tristeza era relativamente grande: “ cantavamos uns para os outros ‘para a escola, para a gaiola; para a escola, para a gaiola’ ”.
    A escola daqueles tempos também era completamente diferente da escola de hoje: não haviam cantinas, não haviam recreios e não havia nem um pouco da vivência atual. “Os meninos entravam, sentavam-se e ouviam o senhor professor falar toda a manhã e depois toda a tarde” - a rigidez era total.
    Para além disso, a generalidade dos habitantes da freguesia vivia com limitações. Os meninos tinham de ir a pé para a escola, de pés descalços, alguns durante dois ou três quilómetros; para o almoço levavam de casa uma fatia de pão de milho com um pedacinho de chicharro ou de torresmo ou com um ovo que iam trocar por figos passados, marmelada ou uma fatia de queijo à mercearia. Para beber, levavam uma garrafa que apanhavam dos americanos com café de cevada ou iam buscar água ao poço do vizinho ou à bica, quando esta corria.
    Dr. Adelino teve diferente sorte; vivia paredes meias com a escola podendo ir  almoçar a casa, e os seus pais tinham mais algumas posses que permitiam, a ele e ao irmão, usar sapatos.
    Esta diferença financeira não impedia o convívio entre todas as crianças. Adelino comia várias vezes em casas de pessoas mais pobres e as outras crianças também comiam variadas vezes em casa dele – dependia apenas do lugar onde estavam a brincar.
    Chegando aos dez anos, rumou a Angra para fazer um ano de preparação na escola particular do Tenente Areias, para a admissão ao liceu.
    Feito o exame de admissão, iniciou estudos no liceu de Angra do Heroísmo, atual museu da cidade, onde as coisas também tinham um modo de funcionar diferente do de hoje. No entanto já havia uma pequena cantina onde serviam leite achocolatado e algumas sanduiche e também já existiam intervalos. Porém,  rapazes e raparigas estavam separados não só por turmas mas também por zonas: havia o pátio dos meninos e o pátio das meninas, o corredor dos meninos e o corredor das meninas. Quando chegava à hora do intervalo, as portas eram fechadas de forma a que não houvesse nenhum contacto entre eles.
    Os anos passaram, e por  algumas situações menos boas, acabou por repetir o quinto ano (atual 9º ano) . Por esta razão, foi integrado na única turma mista da escola – a turma dos repetentes, naquele ano “o célebre 5º C”. Acabou por ser uma experiência com uma lado positivo porque o fez refletir e perceber que tinha de se empenhar.
    Acabado o liceu, Dr. Adelino entrou em medicina na universidade de Coimbra já tendo em vista as análises clínicas. Entretanto, mudou para Farmácia por ser mais adequado para esta especialidade e, por essa altura foi recrutado pelo serviço militar.
    No dia 3 de maio de 1966 sentou praça em Mafra, onde fez a recruta. De Mafra foi para o Porto onde tirou a especialidade em rodoviávia, uma vez que já tinha carta de condução de carro e de mota. Daí foi transferido para Elva, onde pediu para ir para a unidade da Figueira da Foz tendo em vista o aproximar-se da Universidade de Coimbra e poder prosseguir os seus estudos. Pensou que seria possivel concluir o ensino universitário, mas as coisas não foram assim tão fáceis: teve de ir para a guerra do Ultramar.
    Passaram-se doze dias de viagem até chegar a Luanda. Aí começou a sua vida no Grafanil, numa companhia de transportes.
    O “Açoreano”, como lhe chamavam os companheiros militares, passou dois anos em cenário de guerra. Era conhecido por ser severo, mas essa característica, segundo o próprio, era essencial, porque “um pequeno descuido” nestas situações pode pagar-se com a vida. “Tinha uma vida relativamente boa, ao lado de uma vida má”, afirma Adelino. Nesses dois anos, fez inúmeras viagens de muitos e muitos quilómetros, passou por armadilhas e por várias semanas perdido no mato, mas o seu rigor permitiu que passasse por todas essas dificuldades sem problemas de maior gravidade.
     Depois da guerra, voltou para Portugal para acabar o seu curso. Ainda a estudar, casou e teve dois filhos. Passou por algumas dificuldades económicas uma vez que o estágio não era remunerado e, como me disse, “a barba já estava dura na cara”, já havia o sentido de responsabilidade e de ter de ser ele a sustentar a sua família.
    Licenciou-se em Análises Clínicas e voltou para a sua ilha.
    Abriu um laboratório por sua conta que até hoje é um dos laboratórios de análises mais conhecidos da cidade.
    Trabalhou 12 a 14 horas por dia, mas valeu o esforço. Viajou a primeira vez após 7 anos de trabalho sem pausa, e agora só lhe falta passar pelo continente Autraliano.
    Atualmente, reformado há três anos, continua a levantar-se à mesma hora que se levantava antes, a trabalhar no laboratório, a não parar. A diferença é que dedica mais facilmente um bocadinho mais de tempo para aquilo que lhe dá prazer: a pintura, a escultura, a pesca, o mar, a escrita, os netos.
    Lançou o livro “A minha geração foi a última no tempo”, no dia 24 de junho de 2012. Irá brevemente lançar um sobre a sua freguesia natal, as Lajes, e está a escrever outro sobre os objetos tradicionais que eram feitos aqui na ilha Terceira e que com o tempo se foram perdendo.
    Indignado com as mudanças da geração de hoje, educou seus filhos e quer incentivar os seus netos a fazer o que ele fez: “trabalhar de dia e pensar de noite” - para ele, a receita do sucesso.  A disciplina, o trabalho, o esforço - agir em tempo agir, planear em tempo de planear - não ao contrário. São valores que antigamente se reforçavam muito (na tropa) e que hoje são mais vezes do que o desejável esquecidos.
    Esta é uma preciosa lição da escola do viver do Dr. Adelino Andrade.
    Ao conhecer a história de vida de alguém que já passou por situações boas e más, já aprendeu e já ensinou, já viveu muito mas quer continuar a viver com paixão, com intenção, com um projeto de vida, de forma ativa e participativa na sociedade em que está, esperemos que aqueles que leiam a sua história se possam sentir inspirados a querer também que a sua vida se possa contar de forma semelhante: alegria, tristeza, dificuldades, esforço, empenho, mas, em qualquer situação, vontade de prosseguir, de fazer, de continuar a viver, de levantar todos os dias de manhã “à mesma hora”.

 

  Esta história de vida foi elaborada, em Agosto de 2012 pela jovem Mariana Oliveira

Voluntária na SCM de Angra do Heroismo

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publicado por servoluntariosempre às 00:49
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