Sexta-feira, 12 de Abril de 2013

Entrevista ao Diário Insular

De acordo com um estudo da Deco, divulgado na semana passada, um em cada dez idosos fica um ano em lista de espera para entrar num lar, em Portugal. Nos Açores, o cenário é semelhante?


Nos Açores são numerosas as listas de espera para os lares do setor social. Existem lares cujas listas de espera ascendem às três centenas de idosos. Para muitos a espera é longa e as admissões são efetuadas para as vagas que se vão criando, quase sempre na sequência do falecimento dos que as ocupavam. Ainda assim, é feito um grande esforço pelas Instituições no sentido de assegurarem a resposta, tão rápida quanto possível, aos casos considerados prioritários.

 

Considera que é necessário reforçar a capacidade de acolhimento de idosos nos lares da Região?


Considerando o panorama atual, caraterizado pelos numerosos casos em lista de espera, sim, seria de reforçar a resposta Lar. A possibilidade de aumentar a capacidade dos lares já existentes não me parece, no entanto, muito pacífica. Os lares de idosos que existem encontram-se lotados, não sendo aceitável o aumento da capacidade de acolhimento dos mesmos, situação que comprometeria seriamente a qualidade dos cuidados que prestam. Com efeito, o aumento da capacidade dos lares existentes na Região apenas poderá ser equacionado num contexto em que sejam consideradas outras condições de que deverão ser dotados para assegurar uma resposta com qualidade aos seus residentes. Refiro-me, por exemplo, aos respetivos recursos humanos, que, na maior parte dos casos são insuficientes, nomeadamente ao nível da categoria dos trabalhadores auxiliares de apoio a idosos, cuja média de idades é já bastante elevada na Região, num contexto em que é cada vez mais dependente, e, portanto, exigente em cuidados, a população atualmente institucionalizada em Lar. Seria necessário, sobretudo, dar a estes Lares – já que a conjuntura atual não é muito favorável à criação de novas estruturas – condições para que possam cuidar adequadamente de uma população idosa cada vez mais dependente e portadora de novas patologias caraterísticas da idade muito avançada.

 

Acha que houve um aumento de pedidos de acolhimento em lares, fruto das dificuldades económicas dos terceirenses?


Os idosos são os novos pobres do séc. XXI. Segundo dados de 2010, eram cerca de 22% os idosos pobres em Portugal. A conjuntura atual vem agravar estes números. Não disponho de dados que me permitam tirar a conclusão que a sua questão sugere. Mas é natural que as dificuldades económicas dos nossos idosos possam estar associadas à maior procura dos lares de idosos. Com efeito, é completamente desesperante a situação de muitos idosos que, vivendo sós, sem suporte familiar, e auferindo pensões na ordem dos 300€ mensais, não conseguem, obviamente, suportar as despesas com medicamentos e outras associadas à satisfação das suas necessidades básicas. O acolhimento em lar afigura-se uma solução que garante as condições de subsistência e alguma qualidade de vida aos idosos que mensalmente pagam à Instituição, conforme legalmente previsto, uma mensalidade correspondente a 80% dos seus rendimentos declarados, mas que pressupõe um conjunto de serviços incluídos (alimentação, tratamento de roupa, cuidados de higiene, saúde e conforto, ocupação, entre outros).

 

Haverá também uma crise de valores? Os idosos são “despejados” nos lares, porque não há vontade de cuidar deles ou as pessoas não têm, hoje em dia, possibilidade de conciliar a vida profissional com o tratamento de um familiar com mais idade?


Contrariamente à ideia generalizada, são apenas cerca de 4% os idosos a residir em Lares de Idosos no nosso país, o que significa que a maioria dos idosos vive em casa, com o suporte de cuidadores informais. Os idosos que ingressam nos lares de idosos fazem-no, tendencialmente, cada vez mais tarde, com idades cada vez mais avançadas e em situações de cada vez maior dependência, quando é manifestamente difícil a sua permanência em casa, por impossibilidade de a família assegurar em casa os cuidados dos quais passam a necessitar. Neste momento, há que constatar também que são muitas as famílias que sofrem ao tomar a decisão de internamento do seu idoso em lar, mas que, objetivamente, não possuem condições para manter e acompanhar o seu idoso em casa. Seria, com efeito, necessário implementar medidas de apoio à família que facilitassem a conciliação da vida familiar com a vida profissional. Às entidades empregadoras cabe um importante papel enquanto Entidades Familiarmente Responsáveis (EFR’s), que devem ser, no âmbito das respetivas políticas de responsabilidade social.

Também existem os idosos vítimas de uma gravíssima desresponsabilização familiar, em que as famílias, filhos ou outros, encontram no lar a resposta mais fácil para o seu idoso. E neste caso estamos perante um problema social grave, que remete para fatores de ordem cultural, de mentalidade e de valores. Neste contexto, e tendo em vista a construção de um novo paradigma para um tempo que cria condições para uma cada vez maior longevidade, defendo uma socialização para o envelhecimento – um processo que deverá ser, desde cedo, levado a cabo pela família e pela escola como grandes agentes de socialização da criança.

 

O reforço de uma rede de cuidados continuados, com equipas que prestassem auxílio aos idosos no domicílio, poderia fazer com que eles pudessem permanecer mais alguns anos em casa?


Sim, claro. Conhecemos bem as potencialidades do suporte legal dos Cuidados Continuados Integrados (CCI) mas também as limitações e constrangimentos associados à sua implementação um pouco por todo o país. No âmbito dos CCI importa salientar o papel crucial dos serviços de apoio domiciliário. Desde 1995 tenho vindo a defender a criação de serviços de apoio domiciliário integrado, baseados em equipas multidisciplinares de intervenção domiciliária, muito à semelhança do que já acontece nos países do norte da Europa. De resto, relatórios oficiais dizem-nos que a resposta apoio domiciliário é manifestamente mais barata do que a resposta lar pelo que este facto, associado às múltiplas vantagens dos serviços prestados em domicílio, deveriam traduzir-se num investimento prioritário nesta resposta. Os serviços de apoio domiciliário integrado permitem: manter o idoso no seu meio habitual de vida; propiciar um apoio excelente à família; evitar internamentos hospitalares; reduzir significativamente o tempo de internamento hospitalar; antecipar altas hospitalares e aumentar a qualidade e a rapidez da convalescença.

 

 

 Entrevista ao jornal  Diario Insular, pela Dra Maria Manuela Sousa


Mestre em Gerontologia Social Aplicada, e Socióloga da Sta CMAH

 

 

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publicado por servoluntariosempre às 15:27
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