Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Carnaval, Envelhecimento e Participação Social

Aos 8 anos de idade participei no meu primeiro bailinho de Carnaval. Um bailinho com crianças entre os sete e os dez anos, organizado pelo meu pai e feito então no “Largo da Fontinha”— lugar onde residíamos naquela altura. Este bailinho foi o meu primeiro contacto como figurante no Carnaval. E daí comecei a ficar contaminado por uma “febre” chamada Carnaval da Terceira!

 

No mesmo Largo da Fontinha, participei em mais dois bailinhos de crianças. Depois, os meus pais fixaram residência na então Freguesia das Lajes, onde me incorporei em outros grupos, tais como danças de pandeiro, danças de espada e, a partir dessa altura, já sentia o Carnaval a ferver nas minhas veias, de tal forma que participei como figurante durante trinta anos.

Em 1985, atendendo a uma necessidade do grupo, aventurei-me a escrever o meu primeiro assunto.

Na altura, foi uma “aventura” pois tentava escrever o dito assunto mas nem eu próprio tinha a mínima certeza se iria sair dali alguma coisa de jeito.

Eis que então o primeiro assunto que escrevi foi muito bem aceite pelo grupo e pelas plateias. E no ano seguinte o grupo já insistiu que fosse eu a escrever o assunto. Escrevi e também foi bem aceite por todos.

E daí para a frente passei a escrever para o meu grupo e para outros grupos, até que nos últimos anos uma grande parte da minha vida é ocupada a escrever para vários grupos da nossa ilha, Estados Unidos, Canadá e, ultimamente, também para um grupo na ilha Graciosa.

Participo no Carnaval através dos argumentos que escrevo. É para mim uma forma de sentir a chama do Carnaval no meu peito, durante quase todo o ano.

Porque, em cada “assunto” que escrevo. vivo, sinto e revejo-me nas variadíssimas personagens que vou criando.

 

Modéstia à parte, eu vejo a minha participação no Carnaval da Terceira, como um “pilar” entre os demais pilares que ostentam esta tradição!

Porque para haver danças e bailinhos é preciso haver quem escreva os textos para os mesmos. E dentro desse capítulo eu tenho feito o que posso, dando sempre o meu melhor.

Também sei que esta minha participação, por alguma imposição da vida, um dia vai ter que parar. Mas tenho a certeza que o nosso Carnaval tem o seu futuro assegurado, porque a cada ano que passa vejo surgir novos autores que certamente com todo o seu profissionalismo irão dar a sua preciosa contribuição para que o Carnaval da Terceira seja cada vez mais forte e continue a merecer o estatuto de um dia ser visto como Património Imaterial. Porque o nosso Carnaval é único em todo o mundo.

Quanto ao número de argumentos (assuntos) que me solicitam, nos últimos anos tenho escrito uma média, entre os quarenta e os cinquenta assuntos.

E tenho vindo a notar um certo aumento de solicitações. Mas o tempo não me permite que eu vá muito além destes números que acabei de falar.

 

Confesso que, com o passar dos anos e a preocupação de manter aquilo que escrevo sempre a um nível digno do nosso Carnaval, já começo a sentir um certo cansaço o que é muito normal! Mas também sinto que se tiver saúde, ainda tenho muito para dar ao Carnaval da Terceira.

O que me motiva todos os anos a produzir para o Carnaval…além de ser um trabalho que já faz parte da minha vida profissional, motiva-me a tal “febre” por esta tradição… O sentir que estou sendo útil… O orgulho e a emoção de ver os personagens a semearem a semente que eu preparei. E contato com centenas de pessoas todos os anos, com quem vou sempre aprendendo um pouco mais…

 

Para mim tem um significado muito importante esta minha vivência. É como uma fonte de vivacidade, e de alegria, que me incentiva a ser criativo e a aprofundar cada vez os meus escritos, porque deles depende a boa disposição de muitas pessoas!

Gosto de trabalhar todos os argumentos, sejam eles dramáticos ou cómicos. Mas a minha preferência são mesmo os argumentos cómicos! E muito mais numa fase em que um certo desânimo assombra a nossa sociedade. Nada melhor do que conseguir despertar nessa mesma sociedade a boa disposição e um sorriso de alegria…

 

Os temas relacionados com o envelhecimento são sempre tratados de uma forma em que a sociedade veja a velhice com a dignidade e o respeito que a mesma merece.

Por vezes, nos textos, “brinca-se” com a velhice, mas sempre com o intuito de a enaltecer. Porque não nos devemos esquecer que eles são as raízes da nossa existência.

 

Uma das coisas que mais prazer me dá, é quando vejo à minha porta um grupo de idosos que me vêm solicitar que eu escreva um “assunto” para um bailinho de Carnaval da 3ª Idade.

É lindo de ver a maneira como pessoas de setenta, oitenta anos de idade e às vezes até mais, me abordam para escrever para eles.

Eu vejo no seu olhar um imenso brilho de alegria, de contentamento, de juventude e de vontade de viver!

E muito mais lindo é, quando os vemos em palco fazendo as suas actuações.

Durante os ensaios e os dias em que sobem aos palcos, eles são uma fonte de vivacidade! Alguns deles, mesmo com alguma dificuldade para se movimentarem durante a coreografia que o bailinho exige. Eles, sempre que o fazem, brindam as plateias com um enorme sorriso de felicidade!

E às vezes ainda não acabaram um Carnaval, já me dizem: “senhor Hélio, se Deus nos der vida e alguma saúde, conte com a gente para o próximo ano….”

 

Isto é a prova que o envelhecimento não envelhece o espírito das pessoas.

Penso mesmo que o que as pessoas de mais idade precisam é que sejam tratadas com o carinho que merecem. Que tenham direito à nossa atenção e a algum tempo do nosso tempo. E, acima de tudo, enquanto viverem, que lhes dêem sempre um espaço para puderem desfilar em cima do palco da vida.

 

Hélio Costa

Convidado no âmbito do Programa do Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e Solidariedade entre Gerações da Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo

 

 

 

sinto-me:
publicado por servoluntariosempre às 19:02
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